terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Meu cientista discorda do seu – Parte II – Cuidado com livros, papel aceita tudo!

Recentemente um excelente site de viés ideológico liberal (Spotniks) postou dois textos sobre a criminalização do aborto, um contra e um favor, que a meu ver, foi uma forma brilhante do site tratar de um tema que definitivamente não é consenso entre liberais e libertários. E não, eu não pretendo falar de aborto aqui porque o assunto é bem complexo, e muita gente mais capacitada que eu neste ponto deram seu parecer e contribuição para este debate muito além do que eu poderia contribuir. Meu objetivo é outro completamente.
Ao tocar em um assunto tão polêmico o site fez surgir alguns debates e nestes debates notei uma coisa muito grave. Há muita ignorância sobre o método científico e sobre como ocorre a construção do conhecimento científico e isso está alijando muitos debates produzindo muitas argumentações equivocadas. Pessoas falando “Mas há cientistas que dizem isso e aquilo” ou então argumentos como “a ciência não é dona da verdade” entre outros. Não acho também que a ciência seja a dona da verdade, até porque a ciência não é uma entidade ou organização. Não há um conselho mundial científico nem uma organização com presidente e burocratas que define o que é ou não conhecimento. A coisa não é bem assim e eu deixei muito claro isso na parte I sobre o método científico. Meu objetivo aqui então é apenas esclarecer a questão das divergências entre “cientistas” (vão entender as aspas depois).
Como foi explicado na Parte I, o método científico não é perfeito, mas é a maneira mais eficiente de produzir respostas sobre a natureza do modo mais objetivo possível. Por isso, os que conhecem o método, confiam tanto nos resultados que ele produz. E por isso é importante atentar para um problema. Muita gente, com formação científica, pode ignorar o método e desenvolver teorias sem metodologia clara, ou com conclusões falaciosas, ou com dados falsos.  A maioria esmagadora destes trabalhos não chega nem perto dos periódicos indexados, pois a revisão por pares já os aniquilaria. Por isso, os autores preferem publicar livros, já que editoras tem um crivo bem menos exigente e estão mais interessadas nas vendas do que no prestígio científico da sua marca. Estes “cientistas” apostam na falácia da autoridade, que reside na ideia de que seus resultados tem credibilidade apenas porque “vem de um cientista”, ignorando a pedra central do método científico que é a objetividade, que implica na independência entre autor do estudo e resultado. Sem falar que essas publicações não tem nenhum compromisso com a verdade ou verificabilidade, assim como demais obras de ficção. O próprio mercado publicitário faz uso da falácia da autoridade usando pessoas em jalecos brancos (que representam um esteriótipo de cientista) para dar credibilidade a seus produtos, como foi inteligentemente satirizado na esquete do programa "Ta no Ar" de Marcelo Adnet na Tv Globo.
Eu sou Astrofísico de formação e profissão. Se eu abandonar minha carreira acadêmica hoje para começar a escrever livros sobre astrologia e como os astros podem afetar nosso destino, sem dúvida eu seria capaz de produzir textos com linguagem acadêmica que se passariam perfeitamente por trabalhos científicos sérios, respaldando a astrologia e a “ciência da energia dos astros e cristais”, ou qualquer coisa assim. Porém, meus textos jamais seriam publicados em periódicos indexados, já que eu teria de ignorar praticamente todos os aspectos do método científico para construir as afirmações astrológicas. Restaria-me então escrever um livro que, dado a minha formação profissional e histórico acadêmico, poderia muito bem se tornar um best seller e ser usado em discussões sobre a veracidade ou não da astrologia em argumentos como “Aqui oh, ele é astrofísico e mostrou que há correlação e discorda dos que dizem que astrologia não funciona, leia o livro dele”. Eu ganharia dinheiro fazendo algo inescrupuloso e me aproveitando da ignorância cientifica da maioria da população que, por desconhecer o método científico e sua importância, não sabe avaliar o quão picareta eu estaria sendo. O canal de vídeos Nerdologia fez um video ótimo mostrando como funciona a astrologia e seus problemas. E isso é o que mais ocorre com negadores do aquecimento global, advogados da teoria da “Terra Plana”, Astrólogos, Tarólogos e demais e obras como "O Segredo" e "O Cérebro Espiritual". São charlatões com diploma de curso superior que decidem ludibriar a população para ganho financeiro. Alias, sobre o lívro "O Cérebro Espiritual" e suas falácias, há um video excelente no canal "Eu, Ciência" explicitando exatamente porque é um material falacioso e sem credibilidade científica. 
Confesso que parte dessa cultura de falácia da autoridade (como a charge representa) vem na forma como ciência é ensinada hoje em dia (principalmente física) focando demais nos físicos responsáveis pelas teorias. A teoria da relatividade de Einstein e da gravitação de Newton, por exemplo, quase sempre que são ensinadas vem acompanhada de uma bela biografia dos cientistas por trás delas com uma convocação a admiração. Isso da a equivocada ideia de que as teorias são válidas e relevantes porque os cientistas são importantes. Não, Isaac Newton apenas descreveu matematicamente uma teoria para um comportamento natural, ele não inventou a gravidade. Uma boa analogia a isso é com o descobrimento do Brasil. A massa de terra aonde Cabral chegou existe independente da chegada ou não dos portugueses. O que Cabral fez foi apenas atestar para sua existência e levar a informação aos demais. E é isso que cientistas naturais fazem ou tentam fazer.









Por isso, quando for buscar conhecimento científico, não foque em livros Best Sellers nem em cientistas específicos. Busque artigos acadêmicos. Lembrem-se que qualquer pessoa é passível de mentir e enganar, que médicos, biólogos, astrônomos, psicólogos e afins, também mentem, também podem te enganar. Lembre-se que qualquer um pode escrever e publicar um livro e que autores de livros podem discordar por motivos quaisquer. Mas apenas em artigos acadêmicos em periódicos indexados é que eles são obrigados a discordar de modo objetivo, seguindo uma metodologia clara e verificável. Sejam mais exigentes e céticos. Sejam como avaliadores de periódicos indexados e apliquem estes critérios ao que vier de novo. E lembrem-se disso quando forem afirmar coisas como “Há cientistas que discordam logo a ciência ainda não tem resposta para isso”. Há muitas coisas para as quais os cientistas realmente discordam e para as quais não há respostas. Mas tais discordâncias jamais existirão apenas em livros de divulgação. Se existe apenas ali, desconfie!

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