terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Meu cientista discorda do seu – Parte II – Cuidado com livros, papel aceita tudo!

Recentemente um excelente site de viés ideológico liberal (Spotniks) postou dois textos sobre a criminalização do aborto, um contra e um favor, que a meu ver, foi uma forma brilhante do site tratar de um tema que definitivamente não é consenso entre liberais e libertários. E não, eu não pretendo falar de aborto aqui porque o assunto é bem complexo, e muita gente mais capacitada que eu neste ponto deram seu parecer e contribuição para este debate muito além do que eu poderia contribuir. Meu objetivo é outro completamente.
Ao tocar em um assunto tão polêmico o site fez surgir alguns debates e nestes debates notei uma coisa muito grave. Há muita ignorância sobre o método científico e sobre como ocorre a construção do conhecimento científico e isso está alijando muitos debates produzindo muitas argumentações equivocadas. Pessoas falando “Mas há cientistas que dizem isso e aquilo” ou então argumentos como “a ciência não é dona da verdade” entre outros. Não acho também que a ciência seja a dona da verdade, até porque a ciência não é uma entidade ou organização. Não há um conselho mundial científico nem uma organização com presidente e burocratas que define o que é ou não conhecimento. A coisa não é bem assim e eu deixei muito claro isso na parte I sobre o método científico. Meu objetivo aqui então é apenas esclarecer a questão das divergências entre “cientistas” (vão entender as aspas depois).
Como foi explicado na Parte I, o método científico não é perfeito, mas é a maneira mais eficiente de produzir respostas sobre a natureza do modo mais objetivo possível. Por isso, os que conhecem o método, confiam tanto nos resultados que ele produz. E por isso é importante atentar para um problema. Muita gente, com formação científica, pode ignorar o método e desenvolver teorias sem metodologia clara, ou com conclusões falaciosas, ou com dados falsos.  A maioria esmagadora destes trabalhos não chega nem perto dos periódicos indexados, pois a revisão por pares já os aniquilaria. Por isso, os autores preferem publicar livros, já que editoras tem um crivo bem menos exigente e estão mais interessadas nas vendas do que no prestígio científico da sua marca. Estes “cientistas” apostam na falácia da autoridade, que reside na ideia de que seus resultados tem credibilidade apenas porque “vem de um cientista”, ignorando a pedra central do método científico que é a objetividade, que implica na independência entre autor do estudo e resultado. Sem falar que essas publicações não tem nenhum compromisso com a verdade ou verificabilidade, assim como demais obras de ficção. O próprio mercado publicitário faz uso da falácia da autoridade usando pessoas em jalecos brancos (que representam um esteriótipo de cientista) para dar credibilidade a seus produtos, como foi inteligentemente satirizado na esquete do programa "Ta no Ar" de Marcelo Adnet na Tv Globo.
Eu sou Astrofísico de formação e profissão. Se eu abandonar minha carreira acadêmica hoje para começar a escrever livros sobre astrologia e como os astros podem afetar nosso destino, sem dúvida eu seria capaz de produzir textos com linguagem acadêmica que se passariam perfeitamente por trabalhos científicos sérios, respaldando a astrologia e a “ciência da energia dos astros e cristais”, ou qualquer coisa assim. Porém, meus textos jamais seriam publicados em periódicos indexados, já que eu teria de ignorar praticamente todos os aspectos do método científico para construir as afirmações astrológicas. Restaria-me então escrever um livro que, dado a minha formação profissional e histórico acadêmico, poderia muito bem se tornar um best seller e ser usado em discussões sobre a veracidade ou não da astrologia em argumentos como “Aqui oh, ele é astrofísico e mostrou que há correlação e discorda dos que dizem que astrologia não funciona, leia o livro dele”. Eu ganharia dinheiro fazendo algo inescrupuloso e me aproveitando da ignorância cientifica da maioria da população que, por desconhecer o método científico e sua importância, não sabe avaliar o quão picareta eu estaria sendo. O canal de vídeos Nerdologia fez um video ótimo mostrando como funciona a astrologia e seus problemas. E isso é o que mais ocorre com negadores do aquecimento global, advogados da teoria da “Terra Plana”, Astrólogos, Tarólogos e demais e obras como "O Segredo" e "O Cérebro Espiritual". São charlatões com diploma de curso superior que decidem ludibriar a população para ganho financeiro. Alias, sobre o lívro "O Cérebro Espiritual" e suas falácias, há um video excelente no canal "Eu, Ciência" explicitando exatamente porque é um material falacioso e sem credibilidade científica. 
Confesso que parte dessa cultura de falácia da autoridade (como a charge representa) vem na forma como ciência é ensinada hoje em dia (principalmente física) focando demais nos físicos responsáveis pelas teorias. A teoria da relatividade de Einstein e da gravitação de Newton, por exemplo, quase sempre que são ensinadas vem acompanhada de uma bela biografia dos cientistas por trás delas com uma convocação a admiração. Isso da a equivocada ideia de que as teorias são válidas e relevantes porque os cientistas são importantes. Não, Isaac Newton apenas descreveu matematicamente uma teoria para um comportamento natural, ele não inventou a gravidade. Uma boa analogia a isso é com o descobrimento do Brasil. A massa de terra aonde Cabral chegou existe independente da chegada ou não dos portugueses. O que Cabral fez foi apenas atestar para sua existência e levar a informação aos demais. E é isso que cientistas naturais fazem ou tentam fazer.









Por isso, quando for buscar conhecimento científico, não foque em livros Best Sellers nem em cientistas específicos. Busque artigos acadêmicos. Lembrem-se que qualquer pessoa é passível de mentir e enganar, que médicos, biólogos, astrônomos, psicólogos e afins, também mentem, também podem te enganar. Lembre-se que qualquer um pode escrever e publicar um livro e que autores de livros podem discordar por motivos quaisquer. Mas apenas em artigos acadêmicos em periódicos indexados é que eles são obrigados a discordar de modo objetivo, seguindo uma metodologia clara e verificável. Sejam mais exigentes e céticos. Sejam como avaliadores de periódicos indexados e apliquem estes critérios ao que vier de novo. E lembrem-se disso quando forem afirmar coisas como “Há cientistas que discordam logo a ciência ainda não tem resposta para isso”. Há muitas coisas para as quais os cientistas realmente discordam e para as quais não há respostas. Mas tais discordâncias jamais existirão apenas em livros de divulgação. Se existe apenas ali, desconfie!

Meu cientista discorda do seu – Parte I – O método científico.

    Em era de redes sociais e debates de ideias, se torna importante compreender as bases do pensamento objetivo e como ele pode ser usado para contribuir a uma discussão saudável. Para isso vamos falar sobre a ciência (meu foco é nas ciências naturais) e como ela é construída.   
   
        Desde sempre o homem observa e se fascina pelo meio que se insere. E desde o início das civilizações o homem tenta compreender as coisas e teoriza sobre isso. É instintivo tentar compreender onde estamos, de onde viemos, para onde vamos e como funciona o ambiente a nosso redor. Porém, algumas características humanas associadas a outro instinto nosso (o de que reconhecer padrões) podem causar problemas. O pensamento humano é subjetivo e cada pessoa pode criar a ideia que bem entender. Por exemplo, uma pessoa pode reconhecer padrões nos desenhos das manchas lunares e criar uma teoria ou história sobre a lua, sua origem e efeitos. Outra pessoa e civilização podem ver padrões diferentes e criar outra história e teoria. E com isso, não é difícil perceber que em pouco tempo teremos uma enxurrada de construções teóricas sobre a natureza que nem sempre acordam entre si. Junte esta subjetividade discordante com fatores culturais como identificação de grupo e organização política e você tem a receita para perseguições e guerras.
Assim, junto com a necessidade de se produzir conhecimento, veio a necessidade de se avaliar objetivamente os resultados obtidos e teorias criadas. Com isso surge o Método Científico, que nada mais é do que uma metodologia para se avaliar objetivamente um resultado ou teoria. A história do método confunde-se com a própria história da ciência, já que há documentos do antigo Egito que mostram elementos do mesmo.  De qualquer modo, meu foco aqui é na versão mais recente dessa metodologia e nas suas vantagens. A ideia por trás do método científico é bem simples. Analisar objetivamente os resultados e/ou teoria e verificar sua eficiência em explicar observações ou em prever determinados eventos de modo independente do autor ou dos avaliadores. Deste modo é possível determinar se um resultado (por exemplo, a terra é redonda) é de fato uma nova informação verdadeira sobre a natureza ou apenas uma invenção de pessoas que queriam destaque social. Para isso o método conta com os seguintes aspectos:

  • Observação - Uma observação pode ser feita de forma simples, ou seja, é realizada a olho nu, ou pode utilizar-se de instrumentos apropriados. Todavia, deve ser controlada com o objetivo de que seus resultados correspondam à verdade e não a ilusões advindas das deficiências inerentes próprias dos sentidos humanos em obter a realidade. 

Um detalhe importante aí é o da observação controlada. A experiência humana singular não é suficiente como evidencia observacional já que, como estabelecemos antes, o ser humano pode mentir ou ser enganado pelos próprios sentidos. Por isso, a preferencia por instrumentos menos falhos que nossos sentidos e/ou pelo controle rigoroso das condições.

  • Descrição (E reprodutibilidade) - O experimento necessita ser replicável (capaz de ser reproduzido). É importante especificar que fala-se aqui dos procedimentos necessários para testarem-se as hipóteses, e não dos fatos em si, que não precisam ser antropogenicamente reproduzidos, mas apenas verificáveis.
Se uma pessoa afirmar que conseguiu transformar chumbo em outro usando alquimia, o expor um filme mostrando seu procedimento, tal procedimento deve ser detalhado e, se alguém reproduzi-lo deve obter o mesmo resultado. Caso contrário, o resultado é descartado. “Resultados” científicos que surgem apenas com um determinado cientista e nas particularidades do seu laboratório parecem mais mentiras bem contadas. A natureza não tem preferências tão subjetivas para revelar certos aspectos apenas para alguns poucos. Qualquer grupo ou indivíduo que reproduzir as condições do experimento deve ser capaz de observar o mesmo fenômeno. É assim que se busca eliminar a subjetividade do observador.
  • Previsão - As hipóteses precisam ser tidas e declaradas como válidas para observações realizadas no passado, no presente e no futuro.
  • Controle - Para maior segurança nas conclusões, toda experiência deve ser controlada. Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado.
Imagine que eu queira verificar a eficiência de determinada atitude no emagrecimento (dieta ou exercício). Se eu fizer ambos, sem controle algum, é impossível determinar o causador de qualquer perda de peso que eu venha a ter. Pode ser uma dieta que fiz, um exercício ou até mesmo nenhum dos dois, apenas estresse (se eu tiver sujeito a muito estresse naquele período). Por isso, o ideal é selecionar um grupo para estudo, e controlar ao máximo as condições do experimento para ter poucas variáveis. No caso do exemplo acima, o ideal seria levar todo um grupo para um acampamento, garantir que todos tinham a mesma alimentação e atividades diárias. Assim eu poderia isolar as variáveis e deixar uma parte fazendo apenas dieta, outra fazendo apenas exercícios, e outra fazendo ambos e comparar os resultados com a metodologia. Quanto mais controle se tem sobre os elementos que podem afetar seu resultado, mais clara é a conclusão que se pode tirar.
  • Falseabilidade - toda hipótese deve conter a testabilidade, e por tal falseabilidade ou refutabilidade. Isso não quer dizer que a hipótese seja falsa, errada ou tão pouco dúbia ou duvidosa, mas sim que ela pode ser verificada, contestada. Ou seja, ela deve ser proposta em uma forma que a permita atribuir-se a ela ambos os valores lógicos, falso e verdadeiro, de forma que se ela realmente for falsa, a contradição com os fatos ou contradições internas com a teoria venha a demonstrá-lo.

Sem dúvida, o ponto mais importante de uma hipótese científica. A verificabilidade. Uma hipótese que não pode ser testada não tem nenhuma validade, já que sua veracidade jamais poderá ser verificada. Para explicar isso recorro ao grande Carl Sagan. Imagina que eu disse que existe um dragão na minha garagem, mas que ele é invisível e inodoro. Você pode propor jogar farinha ou tinta sobre o dragão para tentar verificar se ele existe de fato, ou espalhar farinha e tinta pelo chão para ver se ele deixa pegadas. Essa seria uma forma de falsear, ou seja, de verificar se minha afirmação procede e ele existe. Porém, eu posso dizer que ele é imaterial e não interage com a matéria, logo nenhum sólido, liquido ou gasoso vai ser afetado por sua presença. Você pode pensar num outro como um detector de calor (infravermelho). Só que eu vou e digo que meu dragão não emite calor. E que ele também não emite qualquer radiação eletromagnética. E assim podemos seguir por diante, com você criando novos testes e eu mencionando características do meu dragão que explicam porque tal teste não o detectaria. É razoável concluir que o dragão so existe na minha mente, ou que sua existência para outros não é verificada. Assim, a hipótese do dragão na minha garagem não é uma hipótese científica, é apenas uma afirmação minha.
  • Explicação das Causas - Em todas as áreas da ciência a causalidade é fator chave, e não se tem teoria científica - ao menos até a presente data - que viole a causalidade. Nessas condições os seguintes requisitos são vistos como importantes no entendimento científico:
    • Identificação das causas
    • Correlação dos eventos - As causas precisam ser condizentes com as observações, e as correlações entre observações e evidências devem realmente implicar relação de causa efeito.
    • Ordem dos eventos - As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados.
 
Podem parecer aspectos e regras simples, mas estes aspectos se mostraram extremamente eficientes na construção do conhecimento científico. Basicamente aprendemos a pegar plástico, madeira, metais e outras fontes naturais e construir computadores, máquinas de ressonância magnética, celulares, marca-passos, impressoras, televisores, aviões, helicópteros, carros, navios, lasers, máquinas de radiografia, ultrassonografia e etc, usando o mesmo método de observar a natureza, criar hipóteses testáveis sobre seu comportamento, testar estas hipóteses, manter o que funcionava e descartar o que se mostrava falho.
É claro que todo método tem problemas e é passível de falha e este não é uma exceção. Mas há formas de contornar estes problemas. Hoje em dia, por exemplo, usamos jornais e revistas periódicos com o que chamamos de “revisão por pares”, que funciona assim: Alguém propõe um novo resultado cientifico, seja uma teoria nova que explique fatos observados, sejam novas observações que refutem teorias antigas, sejam apenas a descrição de determinado comportamento natural. Essa descrição será submetida a uma revista ou jornal que a irá encaminha anonimamente para um, dois ou 3 cientistas especialistas na área que deverão julgar a metodologia e resultados e avaliar se cumpre os aspectos do método científico de modo satisfatório. Se estes avaliadores ficarem satisfeito com o que foi descrito no trabalho, o trabalho é publicado. Este tipo de revista/jornal é chamado “periódicos indexados” e tem como principal prioridade seu prestígio científico. Por isso zelam por tal prestígio acima de tudo, buscando sempre bons avaliadores e retratando-se sempre que cometem equívocos. E termina ai? Claro que não. Precisamente porque tais avaliadores podem ser falhos, deixar passar algo, agirem de má fé, ou simplesmente não terem os meios para reproduzir todos os experimentos mencionados no trabalho (principalmente para trabalhos laboratoriais) é que, uma vez que o trabalho é publicado, são encorajados que outros cientistas testem os resultados e coloquem o trabalho a prova. Por isso, volta e meia surgem novos artigos refutando trabalhos antigos, ou por mostrarem falhas cometidas, ou por terem novos dados (não disponíveis na época) que amplia a visão sobre determinado fenômeno. E essas refutações e correções devem seguir os mesmos aspectos do método científico, para que a coisa seja sistemática e, assim, o mais objetiva possível.
E assim a coisa avança. Toda essa metodologia e procedimentos, apesar de poder ter falhas pontuais, representa a forma mais eficiente de se investigar de modo objetivo a natureza para descrever seu comportamento. Não há uma organização central para controlar todos os periódicos e o corpo de conhecimento científico é tudo o que está disponível de informação e que é utilizado de modo funcional. As revistas e jornais competem entre si pela atenção dos cientistas e nessa disputa de prestígio (que é totalmente similar a competição entre certificadores de qualidade em um livre mercado) surgem os destaques em qualidade como revistas Science e Nature, que publicam apenas resultados de altíssimo impacto.

Ninguém é obrigado a acreditar apenas no que tem o respaldo da revisão por pares e os periódicos indexados. Há inúmeros sites e livros falando do motor de modo perpétuo, pulseira que melhora o equilíbrio, óleo de pele que cura dor de cabeça e melhora desempenho sexual entre outros. Porém, não conheço ninguém que usou um desses de modo funcional e ficou satisfeito com o resultado. Nem há nenhuma evidência que possa garantir que qualquer indivíduo terá sucesso com alguma dessas coisas. E para mim este deve ser o teste final. A funcionalidade. Um paranormal escreveu um livro falando sobre sua capacidade de localizar poços de petróleo com poderes psíquicos da mente (nada de artigo indexado). Empresas acreditaram e investiram dinheiro nele. Até hoje elas nunca acharam petróleo e alguns investidores faliram. Eu prefiro apostar no que foi avaliado e reavaliado por céticos, e você?

sábado, 30 de janeiro de 2016

Ode ao Ceticismo: Naturais x Químicos?!

         O Brasil enfrenta atualmente um problema grave com o Zika vírus e a proliferação do mosquito transmissor. Com este problema, cresceu subitamente o uso de repelentes para evitar a picada do mosquito. Porém, com esta atitude ressurgiram uma tonelada de receitas caseiras de “repelentes naturais” que, por “não serem químicos” são mais saudáveis e isso traz a tona o assunto que de fato quero abordar aqui. Essa estranha ideia de “Químico x Natural” propagada por aí, onde muita gente acredita que “remédios naturais” são o completo oposto dos remédios industrializados vendidos nas farmácias que, por sua vez, são “químicos agressivos” que são danosos a saúde. Esse equívoco muito difundido propõe uma suposta rivalidade entre produtos industrializados e o conhecimento científico, e os produtos naturais (não muito processados) e a suposta sabedoria tradicional que pode ser herdada de povos indígenas ou familiares mais antigos. Muitos inclusive usam o termo “cientificismo” em tom pejorativo para diferenciar o conhecimento científico (que acham arrogante e maquiavélico) do "conhecimento tradicional" ou ancestral. Há, inclusive, uma palestra brilhante na plataforma TED sobre o prejuízo para a sociedade de haver tantos negadores de conhecimento científico. Mas então, vamos esclarecer as coisas e para isso vou usar o exemplo dos repelentes para mosquitos (industrializados e naturais).
         Em função da grande demanda por repelentes para mosquitos, uma empresa privada sem fins lucrativos, que atua no mercado de certificação de qualidade (como o INMETRO) se pôs a testar diversos repelentes e, o resultado de toda essa análise foi inclusive matéria de destaque no programa "Fantástico". A empresa conduziu testes bem simples onde voluntários lavavam bem as mãos, limpavam com álcool, secavam e depois aplicavam um repelente. Em seguida, eles colocavam suas mãos em uma caixa de vidro repleta de mosquitos Aedes Aegypti (não contaminados com vírus nenhum, é claro) e se contava o tempo que levava até que levassem a primeira picada. 

         Agora vem uma parte importante. Para cada repelente isso foi repetido diversas vezes, com pessoas diferentes e com mais de um cientista ajudando os voluntários a determinar o momento exato na primeira picada. Com isso eles estavam determinando a eficácia real do repelente ao proteger diferentes tipos de pele de uma picada do mosquito em um ambiente infestado. Para título de informação, o resultado foi que, independente do rótulo, a média da eficiência dos repelentes foi de uma hora a uma hora e meia. 
         Agora vamos analisar o que foi feito aqui. Um grupo de pessoas se dedicou a, de forma metodológica e clara, estudar a eficiência de um determinado produto com um teste simples e controlado. Isso é ciência. Isso é o método científico. É o método pelo qual o conhecimento científico é gerado e funciona porque é claro, lógico, pode ser reproduzido por qualquer grupo que dispor dos mesmos meios (não depende da confiança de ninguém nos tais cientistas) e apresenta uma metodologia que condiz com as conclusões tiradas. E você pode até criticar o tal estudo, argumentar que deveria ter usado mais pessoas, ou outros parâmetros e isso é construtivo, porque através dessas contribuições se evoluiu para melhorar o que se conhece sobre algo.
         Acredito que todo mundo que leu este texto reconhece a simplicidade deste teste e é capaz de avaliar a confiança em seus resultados e, eu espero, passe a reaplicar repelentes de mosquitos a cada duas horas. Agora vamos compreender como este exemplo pode ser usado para desfazer um pouco da confusão que se faz por aí entre industrializado e natural.
         Qualquer pessoa pode inventar "conhecimento" sobre algo. Assim como sua avó dizia que tomar leite com manga fazia mal, eu posso hoje dizer que Coca-Cola com chocolate pode matar ou alguém pode dizer que canela em pó é tão eficiente quanto creme dental. 
     E em momento algum deve se acreditar em mim, na sua avó ou em qualquer outra pessoa única e simplesmente porque ficamos velhos ou vivemos por décadas acreditando nessas coisas. Veja bem, não estou falando que sua avó está necessariamente errada sobre tudo. Estou falando que ela pode não estar certa sobre tudo e, portanto, seria bom testar e questionar as coisas antes de sair evitando dar manga (que é uma fruta muito saudável) para crianças, simplesmente porque as mesmas consomem mais leite.
     Todo conhecimento afirmativo deve ser testado e verificado de modo objetivo para ser aceito como válido. Se algum amigo seu disser que citronela, cachaça e fumo de rolo são bons repelentes para mosquitos, seria bom saber se tais repelentes foram de fato testados ou se são baseados apenas em experiências pessoais e evidencias anedóticas (alguém contou que funciona).
Por exemplo, mesmo que seu amigo, num acampamento, tenho se visto livre de picadas porque esfregou fumo no corpo, enquanto os colegas dele todos foram banquete de mosquito, acredite isso NÃO PROVA QUE O TAL FUMO FUNCIONA! Isso porque o seu amigo pode ter uma pele mais oleosa, ou emitir um cheiro que afasta os mosquitos naturalmente (é assim que repelentes funcionam), ou ainda que ele foi picado, em menor frequência e, não percebeu por ser menos sensível ou por acreditar que estava protegido (efeito placebo). Qual seria a forma de verificar então a eficiência deste ou de outro repelente? Testando da mesma forma que a empresa la fez para os farmacêuticos. Se você fizer isso e usar uma amostra de pessoas, grande o suficiente, você vai eliminando a chance de ter coisas como tipo e oleosidade da pele e sensibilidade da pessoa afetando seu resultado, afinal está usando pessoas com diferentes tipos de pele e sensibilidade. E assim obtendo um resultado que independe do indivíduo. E muitos desses “repelentes naturais”, como citronela e alguns chás, ja aforam ate testadas por alguns estudos, mostrando eficiência de menos de uma hora. Então sim, podem ate funcionar, mas funcionam menos que os repelentes industriais.
    Agora podemos atacar a questão do “conhecimento tradicional” e o cientificismo. Muita gente acusa cientistas e outros mais céticos de arrogantes, por não reconhecerem o mérito da sabedoria indígena e ancestral. E isso não só está errado como representa uma baboseira sem limites e pode ser muito prejudicial para a saúde geral, como no caso das mães que pararam de vacinar os seus filhos contra sarampo porque achavam que isso iria causar autismo. TODO conhecimento ancestral, indígena ou não, tem sido considerado por cientistas de diversas áreas. 
        A própria aspirina (AAS) que, para quem não sabe, é derivada da casca do salgueiro, veio de conhecimento muito ancestral (há registros do século V A.C. na Grécia antiga e em outras civilizações que usavam o pó da casca do salgueiro para tratar dor de cabeça e febre). Porém, o salgueiro não é uma árvore tão comum em todos os lugares e sua casca é perecível. Então, no processo de aprender mais, muitos farmacêuticos e outros cientistas se dedicaram a estudar a casca do salgueiro para tentar compreender suas propriedades e descobrir o que havia ali que ajudava no alívio a dores de cabeça. Deste processo, onde eles fizeram análises e diferentes testes, resultou a aspirina. Um comprimido pequeno, que pode ser acondicionado em embalagens plásticas para durar mais e ser enviado para qualquer lugar do mundo, praticamente com nenhum efeito colateral, mais eficiente (pois concentra mais a tal substância que traz o alivio) e incrivelmente barato. 
       Agora me diga a lógica da pessoa preferir tomar o chá da casca de salgueiro a aspirina? Ou dela simplesmente tentar vilanizar o processo que permitiu evoluir o trato dessa enfermidade para um modo mais eficiente e acessível? Isso me parece mais uma mistura de ignorância científica (pessoas que não sabem como funciona o método científico) com um desejo egocêntrico de ser melhor, de estar acima da massa, de se destacar e ir contra a corrente.
        Por fim, gostaria de mencionar um problema de semântica. Muitos dizem “eu prefiro remédios naturais a estes químicos aí”. Essas pessoas precisam entender que dengue, zika, ebola e outras são coisas naturais (que provém diretamente da natureza) e não são necessariamente boas e que, como ja disse Tim Minchin TUDO É QUÍMICO. TUDO que consumimos e usamos hoje é resultado de algum processo químico. E, semântica a parte, cuidado ao vilanizar o que é industrializado em virtude do que não é. Eu sei que existem indústrias inescrupulosas e gananciosas que podem prejudicar as pessoas. Mas isso deve apenas ser um incentivo para as pessoas serem mais céticas com as coisas que consomem, sejam industrializadas ou não, para terem certeza de que aquilo foi verificado, testado e analisado e é seguro e eficiente para o consumo, ao invés de saírem acreditando em qualquer baboseira que homeopatas e naturebas insistirem em vender como ideia ou produto. Como no caso das mães que não queriam vacinar os filhos, por exemplo, elas estavam certas em serem céticas, mas uma vez que cientistas fizeram inúmeros testes em diferentes países e verificaram que não há nenhuma relação entre a vacina e o autismo, as mesmas deveriam vacinar seus filhos. Mas não, preferiram manter suas crendices e seguir arriscando a vida dos filhos baseado em baboseiras que os tais "naturebas" propagadores da "sabedoria ancestral" diziam. Como ja disse o grande Carl Sagan "Credulidade mata". Então, Sejamos céticos, mas sejamos com tudo e com todos!

Wesley Safadão x Professores Doutores ou “Porque comparar jogador de futebol/cantor famoso com acadêmicos mal remunerados é intelectualmente desonesto!”

            Tem circulado pelas redes sociais um meme que compara a renda mensal de um professor universitário com doutorado, com a renda do cantor tecno brega Wesley Safadão, em contrapartida a suas respectivas formações acadêmicas (a de Wesley sendo apresentada como de ensino médio incompleto) com o texto: “Muita gente reclama que os governantes não dão valor aos profissionais de educação. E o povo da?”


            Este meme é um exemplo claro da falácia do apelo a emoção usado em tantos outros que teimam em comparar ícones do entretenimento (muitas vezes jogadores de futebol) com profissionais da educação e cientistas com o intuito de sugerir uma suposta injustiça na sua remuneração, fazendo um juízo de valores (deturpado, como ficará claro em seguida) acerca de mérito e valorização profissional. Isso toca em uma questão muito importante e disseminada entre profissionais de educação, pesquisadores e afins e que precisa ser esclarecida sobre mérito, remuneração e valor. Para isso, vou mostrar como esta comparação do tal meme (e das outras no mesmo estilo), não só é intelectualmente desonesta e apelativa (parte I), como traz consigo uma ideia torpe e hipócrita do conceito de valor (parte II). Por fim vou argumentar sobre a valorização criticada do entretenimento e da capitalização do talento acadêmico (Parte III).

Parte I
        Primeiro, vamos a falácia do meme em si. A pessoa que vê este meme é levada, erroneamente, a comparar o ganho de um cantor de tecno brega com o de um professor doutor e, com isso, sentir-se mal ou achar errado já que, intuitivamente para a maioria das pessoas, um professor doutor vale mais (já que ele fez graduação, mestrado e doutorado, estudando por mais de 10 anos para se preparar). E isso é ainda mais intenso e intuitivo na cabeça daqueles que não apreciam o estilo de música tecno brega (e surpreendentemente não veem problema nenhum em um cantor de rock ou do estilo que eles gostem, igualmente sem instrução acadêmica, ganhar cifras maiores que a do tal Wesley). Independente de um juízo de valores sobre mérito acadêmico, vamos ver se a comparação é honesta fazendo uma pergunta simples: “Quantos “Wesley Safadão” existem?”. Ou seja, quantos cantores de tecno brega com músicas que caíram no gosto popular e que são capazes de lotar casas de show com milhares de pessoas existem?
        Essa pergunta mostra como a comparação é desonesta, porque ela não compara um cantor tecno brega profissional qualquer, ela compara um dos mais (senão o mais) bem sucedido da sua área. Ora, para ser intelectualmente honesto o padrão deveria ser o mesmo e deveríamos compará-lo com um professor universitário doutor dos mais bem sucedidos da sua área. Mas neste caso, o apelo a emoção não funcionaria, porque a discrepância desapareceria ou até se inverteria, visto que há professores doutores de certas áreas (como medicina, direito e economia) que, entre palestras e consultorias, ganham até duas vezes mais que nosso querido Safadão. Isso porque, assim como Wesley (e um Neymar, no caso do Futebol), estes profissionais se tornaram, de algum modo, únicos em seus nichos, o que aumentou o seu valor de mercado. Não basta tirar um doutorado para ganhar o que eles ganham, tem de destacar de algum modo e mostrar o seu talento único para os que buscam talento naquela área. Por isso, pega-se o mais bem sucedido de um mundo e compara-se com o mediano de outro. Se você for pegar o salário/ganho médio de um cantor de tecno brega profissional desconhecido, é bem provável que ele ganhe o mesmo (ou até menos) que qualquer professor universitário por horas trabalhadas. Mas, isso não daria o suposto “tapa na cara da hipocrisia da sociedade”, sendo que o hipócrita é quem vende essa ideia.
        Esse meme falacioso nasce da noção deturpada de que valor é algo intrínseco e aí entramos na parte II.
       
Parte II

        Muitos cientistas e professores acreditam que, no momento em que você obtém um título de doutor, seus 10 anos de dedicação atribuem a você um valor objetivo que deve ser adotado por toda a sociedade. Independente dos seus méritos no processo de obter o doutorado, da relevância da sua pesquisa para a sociedade em diferentes contextos, do impacto dos seus resultados e da sua capacidade/habilidade de comunicação e de se destacar. E eles sequer percebem que nem dentro da própria academia isso ocorre.
        Vou dar um exemplo no caso da ciência. Existem prêmios ,no Brasil, para melhores teses e bolsas especiais para alunos de desempenho acadêmico diferenciado (Bolsa nota 10). Além disso, os periódicos onde são publicados os resultados, são hierarquizados; há níveis, A1, A2, B1 e B2 de acordo com o impacto do resultado. Qualquer cientista sabe que não basta seu resultado científico ser inédito e digno de uma tese de doutorado para que o artigo desse trabalho seja publicado na revista Nature ou Science. Estas revistas selecionam apenas os mais impactantes e relevantes. Achar água em Marte vai receber mais atenção e terá mais impacto do que correções orbitais no momento de asteroides do cinturão principal. A descoberta de um anel ao redor de um corpo de pouco mais de 400 km será algo mais impactante e hierarquicamente mais importante para a revista Nature, do que um refinamento da medida do diâmetro de uma das luas de Júpiter. Ou seja, mesmo que todo trabalho de pesquisa que resulte em um artigo/tese tenha seu valor e seja relevante para a academia (e eu não disse que não é), eles não tem a mesma relevância ou igual valor de modo geral. Ora, se mesmo dentro da academia há esta subjetividade de importância e valor, porque cientistas e professores ficam surpresos ao perceber o mesmo padrão na sociedade que os cerca?
        E essa questão de valorização subjetiva encontra aqui 2 pontos importantes. O primeiro é o da necessidade. As pessoas valorizam de modo diferente os bens e serviços baseados unicamente em questões pessoais e subjetivas. O valor financeiro (como é o caso do tal meme) que as pessoas dão a algo depende diretamente do desejo/necessidade que ela tem por aquilo. Um linguista com doutorado em Javanês e Sânscrito pode ter se dedicado com afinco e ter contribuído enormemente para sua área, mas se a minha TV queimar, eu vou preferir usar meu dinheiro para chamar um técnico que fez 2 anos de curso do SENAI do que contratar o tal professor.
        O segundo é o da valorização seletiva ou, como eu gosto de chamar, hipocrisia. Se a pessoa acha que ela, como todo profissional tem um valor intrínseco e objetivo que deve ser proporcional a sua formação acadêmica, ao contratar um professor particular que, por necessidade, está cobrando um preço abaixo do que ela julga ser o tal valor intrínseco, ela deveria se oferecer para pagar mais ao tal professor, e o leitor há de convir que isso raramente acontece. É muito fácil exigir que os outros te valorizem independente do mercado e da oferta/demanda, mas é bem difícil fazer o mesmo com outros.
        Dada essa subjetividade, cientistas e professores precisam, se querem ganhar mais, se mostrar mais valiosos para a população como um todo e aí entramos na parte III.
       
Parte III

        Para encerrar este texto que já ficou longo, vale a pena mencionar o porque do entretenimento ser mais lucrativo e sua relação com a academia. Eu sou capaz de garantir que a maioria das pessoas que vão a um show do Wesley Safadão ou a um jogo de futebol, não gastam com um ingresso (do show ou jogo) nem um décimo do que gastam com a educação sua ou de seus filhos. Um ingresso para show/jogo de futebol médio fica entre 30 e 200 reais enquanto que em uma escola privada mediana a mensalidade não sai por menos de 1000 reais. O tal meme se alastra porque, intuitivamente, muita gente concorda que é uma injustiça valorizar mais entretenimento que educação. De fato, estas pessoas valorizam mais conhecimento. Porém, na grande maioria das vezes  o entretenimento pode ser consumido em massa. Um ator hollywoodiano é capaz de ganhar mais de 20 milhões em um só filme porque a empresa produtora é capaz de levar aquele filme para centenas de milhões de espectadores. Quantos professores/cientistas partilham dessa audiência? Um ingresso de cinema não custa um quinto do preço de um livro didático. Então, professores, cientistas e acadêmicos que querem ganhar como músicos, jogadores de futebol e afins, porque não combinar os pontos da Parte I e III e tornar-se únicos? E desse modo alcançar uma grande audiência? O mundo carece de conhecimento em linguagem acessível a internet permitiu uma conectividade e uma facilidade de acesso jamais vista. Basta agora, que os agentes produtores de conteúdo de qualidade e interessante se dediquem a tal como fazem alguns divulgadores de conhecimento como os youtubers Pirula (Biólogo com especialização em Paleontologia), Átila do canal Nerdologia e afins. Estes cientistas ainda se dedicam a pesquisa acadêmica, mas em paralelo produzem conteúdo consumido por milhares. Alguns produtores de conteúdo dão palestras e consultorias, e vivem muito bem disso. Eu garanto que essa é a melhor forma de se valorizar financeiramente (se este é o desejo). Ficar espalhando um meme falacioso com apelo emocional para tentar culpar as pessoas a te valorizarem não só não funciona (vide que os memes existem desde antes da internet e nada mudou) como soa muito como um “recalque” daqueles que, na incapacidade de obterem o sucesso financeiro desejado competindo livremente no mercado, insistem em usar a força  coerciva do Estado para impor sua valorização!